quinta-feira, 14 de junho de 2007
quarta-feira, 6 de junho de 2007
Ocupação IV
Com algum atraso e uma febre alta, continuo o levantamento de dúvidas sobre o movimento de ocupação. A dúvida é sempre boa, posto que podemos contribuir logo depois.
Em primeiro lugar, A) a universidade não é nenhum deus, ou dogma da igreja. O modelo utilizado no Brasil é plenamente constestável. O uso da universidade reflete uma estrutura de classe, em que os mais ricos buscam monopolizar e garantir fluxos de renda futuros, assim como postos melhores de trabalho, restringindo por meio de uma titulação (USP) o acesso a um capital cultural, digamos. Aqueles que garantem seus fluxos de renda garantem o lugar dos filhos deles nas universidades no futuro. Ela, portanto, contribui para a reprodução de uma estrutura desigual, e para o subdesenvolvimento do país. Duvide de quem peça mais dinheiro para as universidades, mesmo se ele disser que irá usá-la para democratizar o acesso, baseado em algum princípio de socialista utópico renovado sob o nome de auto-gestão.
B) A greve no setor público pede regulamentação. Desde a constituição não se regulamenta a greve, que deve atender também ao princípio da continuidade dos serviços públicos, e por isso nunca se pode estabelecer limites a ela, tampouco negociação oficial de aumentos de salários. Hoje, é tudo feito à margem da lei, e essa desorganização é prejudicial ao ajuste de interesses conflitantes.
C) Achei engraçado um amigo meu comentar, que nas assembléias, instâncias representativas estudantis era comum o fenômeno da "tratoragem". Tratoragem é quando por algum motivo escuso, as votações são atropeladas, pautas não são colocadas, reuniões atrasadas, e isso fica surpreendentemente explicítio e ninguém comenta. O método de fazer pequenas assembléias em centros acadêmicos e depois ir para as assembléias grandes não garante a ponderação, e o conhecimento pleno das informações, por sua vez não garante a democracia. Não há controles internos políticos suficientes para garantir que as decisões tomadas por aquele grupo sejam legítimas. E digo isso por experiência própria assistindo assembléias.
D) Uma universidade pública, gratuita e de qualidade é, sem dúvida uma demanda conscienciosa, e essa demanda tem substituído a da revogação dos decretos, já que as ambiguidades dele estão prestes a ser esclarecidas e ninguém quer perder a motivação de ocupara reitoria (repito que se a revogação ou qualquer outro benefício acontecer, será pela articulação política da burocracia da universidade, e de sua rede de contatos, com as instâncias políticas do governo). Universidade pública pressupõe-se regida por direito público, além de ter um propósito público, pensar no bem comum, não em interesses particulares. regida pelo direito público ela é. Gratuita ela já é. De qualidade dizem que é, embora eu discorde. Então o que pedem, uma continuação? Precisa ficar na reitoria para pedir uma continuação?
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Diogo Bardal
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23:25:00
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terça-feira, 5 de junho de 2007
Ocupação III
A ocupação deveria ser denominada invasão.
"Ocupar" é entrar em um lugar vazio, sem utilidade. A reitoria foi invadida, pois ela funcionava antes de entrarem lá.
Porque a desocupação só vai ocorrer na marra.
Eu acho que a ocupação só acaba quando a Tropa de Choque der o ar de sua graça.
Isso porque nada garante que, se uma assembléia decidir pela saída da reitoria, as pessoas lá de dentro irão sair.
Assembléias de alunos decidiram sair de greve; eu não acatei a decisão, e contra minha classe, vou à aula.
Quem está dentro da reitoria tem o mesmo direito - e asism, permanecer lá dentro.
Se pessoas não tem onde morar (e isso é uma coisa que reivindicam), qual seria a motivação destas pessoas de deixarem o local onde não pagam aluguel, água e luz? Por pior que seja, é muito melhor que nada.
E mesmo que o governo prometa mais vagas no CRUSP, prédios demoram para ser levantados.
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Renato Siviero dos Santos
às
23:44:00
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segunda-feira, 4 de junho de 2007
Ocupação II
O Diogo disse que vai postar algo terça ou quarta, então vou escrever sobre um ponto que às vezes as pessoas não pensam, e que para mim é meio lógico, mas precisa ser explicado.
Porque a greve não funciona.
A greve, em si, é um mecanismo de imposição de perdas.
No século XVIII, os trabalhadores, em busca de aumento de salário e melhoria de condições de trabalho, recusavam-se a trabalhar, gerando assim perda de lucro e depois prejuízo a seus patrões. Teoricamente, quando os custos de pagar as reivindicações tornavam-se menores do que as perdas geradas pela paralização da produção, o patrão escolheria dar as reivindicações aos trabalhadores, simplesmente escolhendo o que custa menos.
Porém, na Universidade, essa estratégia falha em vários pontos.
Com a parada do ensino, quem perde com isso são os alunos, que ficam sem ver a aula, e assim deixam de aprender (entende-se que é isso que eles vão fazer lá). Mas os alunos não são os patrões; pelo contrário, são os consumidores. É como se os trabalhadores (professores e funcionários) fizessem alguma coisa (como jogar lixo no ambiente de trabalho) para prejudicar a si mesmos (já que são os alunos que saem de greve); ou prejudicassem o consumidor (contaminando secretamente produtos, por exemplo), e nem de longe causando perdas para o patrões[tá, pode-se discutir aqui que a contaminação de uma mercadoria faria com que ela parasse de ser comprada, prejudicando o patrão - mas o exemplo diz respeito ao momento em que não se descobriu ainda o que causa doença nas pessoas].
Tudo isso porque, na Universidade, os trabalhadores não geram riqueza (capital); eles geram conhecimento. E o chefe não paga, porque quem paga são os contribuintes, que em sua maioria não são beneficiados pelos gastos dos alunos na faculdade. Ou seja, o único que perde com a greve é o aluno, que deixa de usufruir da sua posição privilegiadíssima, quase parasitária.
E não perde só o conhecimento, como seu tempo.
Soma-se a isso o fato de que em todo mês de maio de ano ímpar acontece uma greve, fazem pelo menos 7 anos. Ou seja, um instumento já inoperante teoricamente é desgastado por ser mais rotineiro que o ano bissexto.
Por que os alunos saem de greve, então?
A resposta, para mim, é porque alunos de primeiro e segundo ano (em sua maioria) são engambelados pelos grupos politiqueiros parasitas (esses sim) da universidade. Esse é meu terceiro ano na faculdade, e minha segunda greve; meu professor está na faculdade a 5 anos e é sua terceira greve, e o que eu vi na primeira greve ele disse ter visto na passada: as coisas não mudam. Não mudam porque, quem ganha com a greve não são os alunos (vistos que o modo de ação descrito aqui nunca poderia dar certo), mas sim esses grupos politiqueiros, que vivem da arrecadação de dinheiro de sócios e precisa aparecer todo dia de matrícula e primeira semana de aula na porta de todos os prédios da FFLCH.
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Renato Siviero dos Santos
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22:49:00
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domingo, 3 de junho de 2007
Ocupação - I
Depois da cornetagem do Diogo, escreverei um pouco do que eu acho sobre a ocupação.
Primeiro, deixarei clara a minha ausência em qualquer debate sobre a ocupação, ou Assembléia ocorrida na reitoria - isso não desqualifica minha opinião, não só porque só a mentira a desqualificaria, como porque eu posso ter opiniões e não participar das decisões por acreditar que o modo que essas decisões são tomadas não são válidas (é o mesmo caso da pessoas que votam nulo). Mas não é isso que eu vou discutir hoje.
Meu professor, Eduardo Marques, explicou sua visão sobre o que aconteceu, pela ótica da politicagem (eu não concordo nem discordo, por não saber o que acontece nesse âmbito): para ele, grupos estudantis fora do DCE (que é o Diretório Central dos Estudantes) - muitas vezes partidários - resolveram tomar a ação de quebrar as portas da reitoria e instalar-se por lá, mesmo contra a vontade do DCE (institucionalmente, dos alunos, já que o DCE é o representante do alunos), para mostrar que o DCE é inoperante, caso conseguissem alguma coisa. Além disso, desqualificariam o DCE e começariam a tomar decisões atropelando o Diretório.
Já fazem mais de 25 dias, e os alunos ainda estão lá. A pergunta é: quando eles sairão?
Os alunos começaram a greve e instalaram-se na reitoria motivados principalmente pelos famigerados decretos do Serra, que tirariam a autonomia das Universidades públicas, já que os gastos feitos pela faculdade deveriam ser reportados para uma secretaria recém-criada, para que essa autorizasse os gastos. De fato, lendo desse jeito, é difícil não dizer que não existe uma brecha constitucional para que o Estado controle a Universidade.
Porém, os reitores das três Universidades (USP, UNESP e UNICAMP) pronunciaram-se dizendo que não acham que os decretos tiram autonomia da universidade.
O que os alunos queriam, ao entrar na reitoria, era uma posição da reitora sobre os decretos. Está certo que ela não dá uma posição quando diz que eles não afetam a autonomia, mas está certo que isso não é justificativa para a invasão de um prédio público. Se tirasse a autonomia da faculdade, a reitora provavelmente não é a favor dos decretos - se não tirasse a autonomia, ela não tem problemas com isso, e a resposta estava dada - aposto que nenhum estudante lá se importa com a posição pessoal da reitora.
Dentro da reitoria, os alunos consequiram para si o melhor amigo e o pior inimigo: o apoio de outros grupos políticos-estudantís com outras reivindicações. Melhor amigo porque apoio político é sempre bom; pior inimigo porque, como sempre acontece, a ocupação, como manobra política, perdeu o foco. Ninguém garante, hoje, que mesmo que o Serra volte atrás e rasgue os decretos, as pessoas sairão de lá. Isso porque são grupos instalados, e grupos que tem reivindicações diferentes e que não precisam fazer nada além de continuar lá; As primeiras reivindicações discutidas pela reitora foram em relação ao CRUSP (Conjunto Residencial da USP), o Bandeijão e os Circulares do Campus.
Tá, e os decretos?
Tá, e as pessoas ainda estão lá.
Hoje, tudo isso é coberto pela mídia, que nunca quis saber de estudante universitário - eles querem saber é da Tropa de Choque. Os alunos já estavam há mais de duas semanas na reitoria, e só quando a Reitora conseguiu a liminar de restituição de posse que a mídia foi para lá. A presença da mídia só garante que o choque não mate todo mundo, num re-make dos quadrinhos de Frank Miller, 300 do Butantã, porque a ocupação já foi muito mal noticiada pela Veja.
Eu não vejo como isso pode acabar rapidamente; e provavelmente não acabará democraticamente. Só que, para mim, o problema não quando isso vai acabar, mas sim que, mesmo quando acabar, a faculdade ainda terá seus dois problemas principais:
1- Ela é elitista e excludente.
2- Ela consome muito e não devolve nada para a sociedade.
Sobre o segundo problema, eu ouvi uma explicação razoável - nenhuma Faculdade da Universidade pode fechar contratos com nenhum CNPJ; ou seja, as faculdades, nem se quisessem, poderiam ter acordos com grupos sociais, sejam eles do segundo ou do terceiro setor. Esse é um problema institucional da faculdade.
O primeiro problema é o pior problema da faculdade, e são poucos os grupos que estão dispostos a discutir isso - e nenhum toma ações em relações a isso. Estou aberto à troca de idéias.
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Renato Siviero dos Santos
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22:17:00
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terça-feira, 29 de maio de 2007
A Taróloga.
Vendo sua bola de cristal, a taróloga, que havia abandonado o tarô há muito tempo, pois os clientes se sentiam um pouco assustados com o não raro aparecimento de uma carta chamada “morte”, tentava observar o futuro daqueles que participavam da ocupação da reitoria, na Universidade de São Paulo. Ela o fazia por curiosidade, o movimento era baixo e ela poderia se distrair (ambigüidade proposital). O pico de atividade, pelo menos para ela, era mais em setembro, não sabia direito a razão.
Mas enfim, a taróloga se formou num centro cigano de excelência, e tinha certa credibilidade. Havia rigor científico no que ela dizia, pelo menos mais rigor científico do que algumas pesquisas. Foi ela que solucionou, (secretamente), a polêmica sobre se o chocolate faz bem ou mal à saúde.
Ela ainda não via muita coisa. A visão estava um pouco esfumaçada, de serração, como quando ela viajava para ver a família no sul. Aos poucos, ela se clareia, e embora a bola de cristal não deixasse ouvir os sons (há filmes mentirosos que colocam sons nas bolas de cristal), podia-se dizer que havia barulho. Não sabemos explicar exatamente como funciona uma bola de cristal, é um mecanismo misterioso, mas não muito caro, se formos pensar.
Primeiro ela viu os ocupantes no tempo presente (a previsão se processa do presente para o futuro, e não vai diretamente ao futuro). Estavam sentados dentro da reitoria, decidindo questões burocráticas da organização da greve. A greve, no caso dos metroviários, é um bom instrumento de pressão, mas em se tratando de estudantes, professores e funcionários de uma universidade pública, se concedem uma reunião com o governador depois de um mês parados, há motivo para festa. O prejuízo no curto prazo de uma greve assim é irrisório, pois não é um serviço público vital. No longo prazo, no entanto, é o maior possível, principalmente porque é efeito adverso a diminuição da qualidade do ensino advinda de uma greve por ano, sem contar o número de questões administrativas importantes que passavam pelo prédio da reitoria, hoje ocupado. Falando em longo prazo, vejamos, pois é para isso que as tarólogas e os economistas existem, para nos dizer sobre o longo prazo.
Metade dos ocupantes, ela via, filiou-se ao PSDB, vinte anos depois. No futuro, eles escrevem editoriais ao Estadão dizendo que eles não esqueceram seus ideais, apenas amadureceram, e tornaram-se realistas. Dizem que o Estado tem mais é que manter a sua política econômica a favor do mercado financeiro, pois senão os investidores vão se sentir em insegurança jurídica, e vão tirar o dinheiro rapidinho. Também é preciso, dizem eles, fortalecer as instituições, garantir direitos de propriedade e acabar (sic) com a burocracia, publicizando, que, óbvio, é mais eficiente.
A outra metade se divide em três. Primeiro políticos típicos da esquerda européia, mas numa versão tupiniquim mais ridícula, em que se faz a mesma coisa que a direita só que com dor no peito e pena dos cidadãos. Além disso, alguns também entram em alguns escândalos com a polícia federal, pois a política econômica que favorece o mercado financeiro, também favorece, vejam só que surpresa (!), o envio de dólares roubados aos paraísos fiscais. A outra parte, bem, virou de professores universitários, ainda genuinamente de esquerda, que vão semanalmente a globonews dar palpite sobre a política nacional, de gravata borboleta. A terceira parte está ainda no movimento estudantil, comendo pipoca e guarda-chuvas de chocolate, sem saber se faz bem ou mal. A previsão então ia acabando.
A taróloga desligou a bola de cristal e ficou um pouco triste, pois em todos esses anos prevendo e re-prevendo com a ajuda dos poderes misteriosos da bola, esses instrumentos, no fim, assim como o tarô e as cartas da “morte”, nunca foram de fato necessários. Era como se ela soubesse o que iria ver sempre.
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Diogo Bardal
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17:05:00
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domingo, 27 de maio de 2007
FWD
(Diogo mandou eu voltar a postar, então estou aqui; vou tentar fazer alguma coisa)
Hoje estava em casa, quando minha mãe quis me mostrar um e-mail. Graças a Deus eu não faço parte dessa sociedade de e-mails, que passam piadas esdrúxulas e projeto audio-visuais de Power Point.
Mas minha mãe faz, e me mostrou um do Katrina. Uma mensagem piegas de como temos que viver nossa vida, e como estamos acabando com o planeta (infelizmente o descaso das autoridades pela região de maioria negra não foi retratada no projeto). Minha mãe achou lindo, como não.
Tentei pensar nisso, e só consegui chegar a uma questão: quem é o filho-da-puta que perde o tempo dele fazendo aquilo?
De certo não é menos filho-da-puta que eu, que estou escrevendo. Só que é mais filho-da-puta que eu por ficar mandando por e-mail para as pessoas!
E como o fato de você ver (e ler) dá crédito a mensagem. Na rua esse cara seria simplesmente um filho-da-puta.
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Renato Siviero dos Santos
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22:50:00
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sexta-feira, 18 de maio de 2007
Retiro o que ia dizer.
Já estava me preparando para fazer um elogio ao livre comércio, por ter visto hoje no supermercado uma Norteña (sabemos que se trata de uma cerveja uruguaia, acho que não preciso explicar) de um litro a R$5,89.
Este fato significa para mim, economista que sou, um ganho de bem estar de grande utilidade marginal.
Iria dizer que o livre comércio traz de fato coisas boas aos consumidores, mas que a custo dos produtores nacionais, ou do nosso próprio capitalismo.
Mas eu não vou dizer nada disso porque descobri que quem está distribuindo a Norteña no Brasil é a Ambev, então não tem nada a ver com dolar barato ou livre comércio.
È sem vergonhice de monopolista mesmo.
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Diogo Bardal
às
11:20:00
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domingo, 6 de maio de 2007
Eu estive pensando um pouco na vida, tentando entende-la, saber o que é .Minha busca não tinha nada a ver com questões existensialistas, do tipo quem sou eu?para onde vou?Afinal eu já sei essas respostas. Eu sou eu , mesmo que nao goste, pra onde vou eu nao sei, e por que estamos nesse mundo nao importa, nós nao temos como sair mesmo. A reflexão sobre a vida que eu tive foi muito mais mediocre, eu so queria saber o que a vida é ou como é, não de maneira grandiosa, de maneira simples, e cheguei a uma conclusão. Conclui que a vida é "isso", pelo menos a minha é "isso", e se for "isso" tudo bem, acho que posso ser feliz assim.Porém quando ia terminar a reflexão nao pude dixar de pensar, mas é só "isso"? A vida que eu conheço me parece satisfatória mas ao mesmo tempo tão pouca, será que aqueles que viram gloria na vida exageraram nos seus relatos assim como uma pré adolescente contando pra amiga sobre seu carnaval no Guarujá. Eu me cansei de ser feliz só porque não tenho motivos para ser triste.
O problema é que não vou tomar atitude nenhuma quanto a minha revolta já que o "só isso" é a vida que eu conheço nao tenho armas pra lutar, se alguem tiver alguma sugestão...
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Felipe
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13:54:00
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sábado, 5 de maio de 2007
Elogio ao Ridículo
O rapaz abria a porta do carro, entrava, e lá estava seu amigo na direção. Cumprimenta-o, sauda-o. Com um sorriso mais para o bege, de quem está mais importado em ir logo jogar futebol do que em ficar conversando com seu amigo que chegara há pouco. Aquele, no entanto, era um dia diferente da mesma semana em que nenhum dos dois havia feito nada de especial. Era o dia de uma confissão. E quando confessasse aquilo nada mudaria no mundo. Nada faria a menor diferença. Era apenas uma verdade que os outros deveriam saber, uma verdade incontestável, dolorosa. Depois da saudação, um silêncio inicial antes que o assunto começasse pairou naquele carro, que fora quebrado após uns segundos:
- Alguém nesse mundo há de dizer o que eu direi.
- Por favor. No meu carro nunca ninguém nunca saiu do armário. Tenha paciência. Disse ele brincando, mas sem deixar de ser alerta, pois ainda que o risco fosse pequeno, era uma das últimas coisas que ele queria ouvir no caminho para o futebol.
- Não, não é isso. O que há de se dizer a esse mundo é que o ridículo é bom. O ridículo é o último reduto da humanidade. É nele onde se vê gente de verdade nesse mundo, que é como eu, que foge dos socos dos outros, que tem canetas estouradas nas camisas.
- Concordo, concordo. Quem quer esconder sua infâmia é menos gente. Você sabe que uma vez eu estava de visita na casa de uns amigos meus, aí nós estávamos tomando café da manhã. Quando preparam café da manhã para uma visita é uma enganação só. Parece que estávamos nesses comerciais de margarina, tudo lindo, tudo ótimo, comida à vontdade. E todo mundo sabe que não é assim que se toma café da manhã.
- Entendo.
- Pois então, acontece que estavámos numa conversa agradável, e alguém disse algo sobre ter viajado para a Itália, sobre ter ido a Milão e conhecido a cidade. Bem, eu não tinha prestado muita atenção na conversa, pois percebi que do outro lado da mesa havia uma cesta de frutas para comer. Olhar fixo àquela cesta, que tinha uma cara de ter frutas doces demais.
- Claro.
- Distraído, ouvi a mãe do meu amigo me perguntar: “Você conhece Milão, Claúdio?”. E eu, que nunca fui à Europa, respondi: “sim, conheço, claro. Minha avó sempre comparava para mim quando ia à feira, e de todos os tipos”.
- Que Gafe. -Riu-se o amigo-. São essas coisas que dão graça à vida. Isso e o tédio. Então nossa vida é um misto de ridículo e tédio.
- E há pessoas contra a eutanásia...
- Não, mas como eu disse, isso que faz a vida mais quente, aliás, ouso dizer que é por isso que as pessoas não querem morrer, pois no céu nem no inferno há ridículo. Se algum dia estiver eu em estado terminal, numa cama de hospital, viraria para o médico o diria: “não antes de assistir ao programa do Márcio Garcia!”.
- Este programa é genial. Verdadeiramente genial. Passo as tardes de sábado vidrado.
- Entre isso e assistir um filme iraniano, ou ler “Caros Amigos”, prefiro mil vezes isso. Duas mil. Ainda bem que na televisão colocam pessoas de bem para pensar nos programas. Eu sempre pensei naquilo que falam nas reuniões da equipe de produção, quantas idéias desperdiçadas.
- O nosso país tem algo de ridículo também. Veja o exemplo da corrupção com dólares na cueca.
- Só no Brasil. Aqui a política é humana, mas só neste sentido. Meu avô sempre reclama que os aumentos do salário mínimo não vão para os aposentados. È bem esperto esse governo, apertar aqueles que já estão de saco cheio de se mobilizar. Podem dar o argumento econômico que quiserem, mas não está direito.
O carro, vai parando, e o lapso de lucidez termina quando se pôde avistar a quadra onde iriam jogar, novinha, azulzinha. Os olhos deles brilhavam como se avistassem, crianças, as suas mães vindo-lhes buscar na escola. Naquele momento não poderia haver outra cena ridícula senão àquela.
Por
Diogo Bardal
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20:16:00
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