quarta-feira, 31 de outubro de 2007
quarta-feira, 10 de outubro de 2007
Pesadelo
Hoje, acordei e falei ao telefone
Rezei para que estivesse num sonho
E para que alguma esperança houvesse
Mas não estava num sonho nem jamais estive
Num sonho: Steve estava ao telefone comigo, atento,
Combinando um jogo de squash
Num clube classe A, no muro externo, um grafite
Um grafite 0,5, que jamais fora arte
Nem diamante, nem parte, nem lápis
Mas de volta a vida, não havida sonho,
Pesadelos meus que não acabam
Pesadelos em que não sou perdoado
Erros meus irreversíveis
Setas em meu peito perfurado
Envenenadas e frias, invisíveis
Em chorosos passos atordoados
Quis voltar à minha cama, quis fugir,
E quis durmir, para sonhar
Que estava na minha cama
A sonhar, que estava na minha cama,
A sonhar, que estava na minha cama,
A sonhar que, enfim, montava uma tartaruga
Que sonhava, estar em sua cama
A sonhar, que estava em sua cama
A sonhar, que estava em sua cama...
Diogo Bardal - 07/10/2007
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Diogo Bardal
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17:00:00
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quinta-feira, 4 de outubro de 2007
domingo, 30 de setembro de 2007
Taxman
O governo bem que poderia anunciar mudanças na sua estratégia propagandística. Em vez de colocar mensagens subliminares nos banners do sítio do governo federal, e de falar de amenidades na Hora do Brasil, poderia ter um vínculo mais afetivo com o cidadão.
Imaginem se ao depositarem R$50,00 numa agência bancária, o homem recebesse um telefonema musical do governo no seu celular:
“Should 0,38 per cent appear too small,
Be thankful I don't take it all.
'Cause I’m the taxman,
Yeah, I’m the taxman.
(if you drive a car, car;) - I’ll tax the street;
(if you try to sit, sit;) - I’ll tax your seat;
(if you get too cold, cold;) - I’ll tax the heat;
(if you take a walk, walk;) - I'll tax your feet.”
Embora se pudesse acusar a voracidade fiscal do governo, não se poderia dizer nada, ao menos, sobre sua falta de bom humor.
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Diogo Bardal
às
12:51:00
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sexta-feira, 7 de setembro de 2007
Yeah, so...
"to catch you up on places I've been"
http://www.fotolog.com/ricardo_mito
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Ricardo Mito
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02:43:00
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quinta-feira, 30 de agosto de 2007
A crise chega a cozinha
Era fim de tarde, o chefe chega ao seu subordinado e diz:
-Olhe, a questão é a seguinte. Como estamos falidos e não há caixa, o pagamento do passivo trabalhista dos funcionários será feito em panelas. Vamos ser pagos em produção, são decisões dos diretores, o seu carro tem porta-malas grande?
- Panelas?! Gritou o funcionário espantado. – A crise chegara nele - Ele não fazia outra coisa no trabalho a não ser ver panelas. Era panela aqui, frigideira ali. Sua mulher, graças a deus, não gostava de cozinhar,e, portanto só via uma bandeja de vez em quando, quando ia esquentar algum congelado. Agora ele chegaria em casa com aquelas panelas, e ela ficaria achando que era ofensa. Onde já se viu trazer panelas para uma mulher que trabalha, e não cozinha porque não sobra tempo? Corria o risco dela bater com as panelas em sua cabeça. Não sabia o que fazer. Teria que vender panelas para conseguir dinheiro e pagar as contas. Mas onde venderia, na rua?
- É a crise na Ásia, é a gripe na Ásia, são os brinquedos Asiáticos. Reclamou. É a globalização! Botemos a culpa nessas coisas. Se ao menos a globalização deixasse a Ásia de fora, sobraria ainda “algum” para o Brasil, e nós não estaríamos na situação em que estamos.
- Deixe disso! Nós brasileiros sempre temos o hábito de botar a culpa nos fatores externos, quando na verdade nós temos nossos próprios problemas de competitividade. Nossa empresa faliu porque faltou planejamento estratégico, benchmarking, balanced scorecard, entende? Não foi por causa dos chineses, nem dos americanos, nem do grande capital.
- Pois então, essa noção de sucesso e fracasso pessoal, é uma invenção desses americanos também, que querem fazer tudo de errado pesar somente em nós mesmos.
- Mas este hábito está no DNA... não?
- Está bem, agora me responda. O que vou fazer com essas panelas?
- É a pergunta que o pessoal de vendas vinha fazendo também. Desde que nossas vendas caíram, nossos resultados passaram a ser negativos e a empresa está falindo, agora eles nos dão este problema e temos que vender uma mercadoria desprestigiada. Hoje, com a modernidade, com as mulheres que não cozinham por obrigação, e ainda trabalham, as panelas perderam muito de sua utilidade. Quem vem ganhando muito são os fabricantes de potes para microondas e de bandejas.
- Mas nossos produtos são tão bons, inoxidáveis, com um design interessante, não há possibilidade das pessoas comprarem só para enfeitar a casa, como fazem com os liqüidificadores?
- Veja, esta pode ser uma boa alternativa, mas não sei se panelas seriam um artigo de luxo muito cobiçado. Para a minha mãe, que deus a tenha, até era. Por muitas vezes ela reclamava que odiava cozinhar com aquelas panelas queimadas, todas pretas e gordurosas, que se precisava ficar esfregando palha de aço. Quando ia nessas lojas de departamento, seus olhos brilhavam com qualquer utensílio de cozinha. Hoje não, hoje está tudo mudado. Eu trabalho aqui há 30 anos, meus salários até hoje sempre foram pagos em moeda, e mesmo sob a hiperinflação!
- Hoje está tudo mudado. Sabe quando vemos nos museus aqueles artefatos dos índios, ou de qualquer outra civilização, e achamos curioso? Acho que um dia essas panelas do meu porta-malas estarão em algum lugar como esse, e algum guia irá dizer: “vejam, estas são panelas teflon, muito utilizadas para fritar ovo, um alimento que se comia antes dos comprimidos”...
- É. No futuro os apartamentos nem cozinha vão ter, quanto mais panelas, quanto mais qualquer coisa que minha mãe não viveria sem. Vai ser uma loucura.
- Loucura não. Na verdade será uma vida normal, só que sem cozinha, sem panelas. As panelas não são tão necessárias assim. Riu-se.
- Acho que estou começando a achar a verdadeira causa da falência desta empresa.
- Eu também.
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Diogo Bardal
às
22:58:00
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terça-feira, 14 de agosto de 2007
City Lights
MAYER, John.
Se há algo de mágico na Lua é que é o único corpo a emanar luz quando tudo está escuro; e como a poesia é anterior à luz elétrica, era impossível não focar seu olhar no detalhe dentro da imensidão negra.
(acredito, até, que a ida do homem a lua nada tem a ver com corrida espacial; ninguém que tivesse a chance de ir até lá poderia deixar passar, e acredito que governantes pensaram: reforma na previdência nada! a gente pode ir para lua!)
Eu não tenho nada de especial com a lua, mesmo tendo certeza que algumas das imagens mais bonitas captadas por meus olhos foram da lua.
O que me comove, mesmo, são as luzes da cidade. Talvez por ter vivido sempre na cidade grande, talvez por gostar das cores, mas acho que não dá para não reparar nos detalhes dentro da imensidão brilhante.
As luzes da cidade representam todo o desenvolvimento humano na Terra, a capacidade de criar que o homo sapiens sapiens teve, e tem, e utiliza até hoje, para criar o que a natureza não o fez, dominar o lugar que lhe é hostil. E a beleza das luzes dos prédios, das torres, antenas e janelas está, como na Lua, no seu mistério: todos sabemos o que têm lá, mas não sabemos como é feito direito, como viemos parar aqui.
Lembro de um amigo dizer que, quando estamos na cidade, ao invés de ver o mar, o pôr do sol ou as montanhas, vemos prédios e achamos bonito. Não poderia ser diferente - as luzes da cidade são a arte espontânea, que não é planejada para ser arte, mas que, como o pôr do sol, é pos si só impressionante, mesmo sem querer sê-lo.
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Renato Siviero dos Santos
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20:34:00
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terça-feira, 7 de agosto de 2007
HENDRIX, Jimi.
Dirigia. Minha sobrinha olha para mim, encosta no meu rosto e em seu dedo fica preso um cílio.
- Faz um pedido!
Em milésimos de segundo me lembrei da minha senhorita. Páro no farol e peço para que fique comigo para sempre.
Encosto o dedo no dedo de minha sobrinha, e quando desgrudo, vejo que o cílio não prendeu no meu.
- Ah, ganhei!
Passou pela minha cabeça todos os infortúnios do futuro, tão improváveis como a validez da brincadeira.
Horas depois percebi, vendo minha sobrinha um tanto fez com um sorvete-de-palito, meu erro: ninguém dura para sempre.
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Renato Siviero dos Santos
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00:07:00
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quarta-feira, 25 de julho de 2007
O amor Venceu
Fazia horas que ela estava, de pé, segurando aquela bandeira de um empreendimento imobiliário num bairro nobre da cidade. Nobre é modo de dizer, pois a estratégia de fazer o bairro virar chique, de pessoas sofisticadas, era uma farsa das próprias empresas de construção civil. O bairro tinha espetinhos e botecos espalhados pelas esquinas, tinha cortiços e casas de prostituição.
Segurava a bandeira com uma força mínima, inercial, e com suas outras três colegas, que escutavam música no fone de ouvido. Duas ficavam numa rua, duas noutra. Sempre vemos algo como isso na rua, é uma tentativa de divulgação um pouco medieval, porque os fidalgos de outrora também seguravam suas bandeiras em frente a seus castelos. Pode ser até que a divisão de marketing tenha tido o objetivo de provocar essa imagem, meio de fidalguia. Não há como negar também que aos preços que as unidades são vendidas, fidalguia não é senão pré-requisito entre os consumidores.
Toda a cena que se figurava ali, naquele local, era irritante, vazia como tem sido sempre esta vida em que cada quarteirão é um pedaço do bairro, um outdoor e um evento artificial e forçado, ao mesmo tempo. Havia dias em que ninguém ia ver o apartamento decorado, havia dias em que o corretor não vinha. Aquele quarteirão, em que as bandeiras tremulavam, era um templo dedicado unicamente à inutilidade, quando não era dedicado ao comércio, logicamente.
E não ela, nem ninguém, mas algo, olhava aquela cena. Alguma nuvem, certa quantidade de ar, que chamariam provavelmente de Deus, Deuses, Acaso, Fortuna. Aquele algo que olhava aquela cena como quem passava apenas o tempo, entediado, e desejava, ou melhor, sabia, que aquilo não era só “aquilo”.
Exatamente. Não era só aquilo, não podia ser. Todo aquele espaço, todas aquelas pessoas com uma ou outra esperança, um sonho aqui ou ali, simplesmente não era possível que fosse só aquilo. Ficava cada vez mais inquieto, com o passar dos minutos, com o soprar dos ventos. Um pouco em vão, se poderia dizer. Ao que tudo indicava, era aquilo mesmo, não importa o quanto se esperasse que fosse outra coisa.
Foi aí que, por teimosia de quem olhava, ou por milagre, não se sabe dizer, um homem que passava pela rua, ao cruzar toda aquela artificialidade, nota que nas mãos daquela moça, em silêncio, havia um livro cujo título era “o amor venceu”. Seu pensamento pára por um instante, e aquela frase lhe entra como uma injeção na farmácia. De repente aquela frase lhe pesa em todos os acontecimentos da sua vida, desde que nasceu, até pouco tempo antes de ter saído de casa, quando sentava no sofá e comia salgadinhos. Repetia em sua cabeça aquela frase “O amor venceu” como um mote, um grito de torcida. Como se uma torcida inteira gritasse roucamente aquele título ao seu ouvido.
Mas o que houve para o amor ter vencido? Não se sabe, venceu. E no meio a toda aquela insensatez, e todas as outras coisas que acontecem na cidade, e em meio a todas as personalidades gelatinosas das pessoas, que não mais se importam com um pingo de vitória do amor, ele, que andava ainda extasiado, entendeu que contra tudo e contra todos, o amor tinha vencido, e agora era irreversível. Passou o resto do dia contente.
Aquele acúmulo de ar, que assistia a tudo, não pêde deixar de se sentir satisfeito. Realmente não era só aquilo, jamais poderia ter sido. De repente, sentiu-se tão inflado , quanto o homem passante, ao constatar que naquele quarteirão havia um mundo em que era nada, e um mundo em que era tudo, e aquele quarteirão era os dois. Ele sorriu e foi preparar uma chuva merecida para o fim da tarde, com direito a trovoadas e tudo.
A moça que segurava o livro olhava para aquela capa com desprezo. Se tivesse dinheiro, teria comprado um livro de sua escolha. Pegara emprestado de um amigo para passar o tempo. Horas antes, no começo da jornada de trabalho, uma de suas amigas perguntou:
- E este livro aí que você está segurando, é bom?
Ela respondeu um pouco decepcionada:
- Não, parei no terceiro capítulo.
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Diogo Bardal
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10:49:00
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sexta-feira, 13 de julho de 2007
Românticos e Realistas
Sempre ouvimos de alguém numa discussão: "ah, estou sendo realista", como se isso desse ao sujeito alguma espécie de superioridade moral. O conhecimento da realidade, seja por pensamento ou por vivência empírica, só pode ser a ilusão dos mais tolos, já que, ao que tudo indica, não é possível sentir, ou conhecer, uma realidade objetiva, algo que exista independentemente do olhar humano, e está ali, diante de nosso nariz.
O humano tem a danação eterna de nunca poder entrar em contato direto com a realidade, isso se ela existir. Ele pode apenas apreendê-la, no entanto, que parece-me ser suficiente. Alguns poucos ainda, além de apreender a realidade, conseguem criá-la. E esses são os que sonham.
Fernando Pessoa, diz: "Os realistas realizam pequenas coisas, os românticos, grandes. Um homem deve ser realista para ser gerente de uma fábrica de tachas. Para gerir o mundo deve ser romântico." "É preciso um realista para descobrir a realidade" (o que na minha visão não é possível, ou só é possível se for para gerir uma fábrica de tachas);"é preciso um romântico para criá-la."
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Diogo Bardal
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11:53:00
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